Lateral esquerdo de times como Náutico, Botafogo e Fluminense, além da Seleção Brasileira, Marinho Chagas era conhecido como “Bruxa”. O apelido era por causa de seu comportamento irreverente e polêmico, e pela cabeleira loira que ostentava.
O jogador teve inúmeros problemas com alcoolismo e morreu em 2014, após sofrer uma hemorragia digestiva alta.
O início
Nascido em Natal em 8 de fevereiro de 1952, Marinho teve uma infância pobre, ao lado de mais nove irmãos. Começou sua carreira futebolística aos 15 anos no Riachuelo, um pequeno time potiguar. Dois anos depois foi para o ABC, no qual conquistou o Campeonato Potiguar de 1970, seu primeiro título profissional.
No ano seguinte, brilhou no Náutico. Foi nessa época que ele passou a ser visto como um craque do futebol pernambucano e ganhou a alcunha de “Canhão do Nordeste” por causa de seu chute muito potente.
Marinho começou então a ficar grande demais para os clubes nordestinos e, pela primeira vez, foi atuar num time que não era da região: o Botafogo. Logo em sua estreia, num jogo contra o Santos pelo Campeonato Brasileiro, Bruxa marcou Pelé.
“Roubei a bola do Pelé e dei um lençol nele. No lance seguinte, toquei entre as pernas do Rei”, se gabou Marinho numa entrevista ao Globo Esporte, em 2012. O clássico alvinegro de 9 de setembro de 1972 terminou 1 x 1 e foi dele o gol botafoguense.
Destaque na Alemanha
Em 1974, Marinho jogou na Copa do Mundo disputada na então Alemanha Ocidental e foi considerado o melhor lateral-esquerdo. Porém, o irreverente e polêmico jogador ficou conhecido também, no mesmo evento, pela briga que teve com o goleiro Leão no último jogo do Brasil, no qual a seleção perdeu para a Polônia por 1 a 0 na disputa do terceiro lugar.
“Lato fez o gol, nas costas do nosso lateral, que era indisciplinado taticamente para a época e avançou desordenadamente”, afirmou Leão, em entrevista ao SporTV em 2011. “Ele foi indisciplinado e mal educado nas respostas quando nós o chamamos para fazer uma fixação pela lateral esquerda. Como era o último jogo, ele disse que era ‘jogador-show’ (…). Nós perdemos por causa disso também. E aí, dentro do vestiário, nós nos desentendemos”, completou.
Bonito e sarado
O ídolo do Botafogo permaneceu até 1976. Um ano depois foi para o Fluminense, no qual ficou por apenas uma temporada. Nesta época, numa viagem a Europa para disputar um torneio de verão na Espanha, Marinho Chagas dizia que havia “pegado” uma princesa de Mônaco.
“Eu era bonito e sarado. Loirão de olhos verdes, a princesinha ficou doida quando me viu numa festa com o pessoal do time. Dancei com ela a noite toda e beijei a princesa várias vezes. Bom demais”, vangloriou-se em entrevista ao Globo Esporte em 2012.
Aproveitando seu bom momento no futebol, foi tentar a carreira nos Estados Unidos, primeiro no New York Cosmos e depois no Fort Lauderdale Strikes. Retornou para o Brasil em 1981 e passou a integrar o elenco do São Paulo, conquistando o título estadual no mesmo ano.
Aposentadoria
“Bruxa” se aposentou em 1988, mas antes passou por clubes como Bangu, Fortaleza, América de Natal e Augsburg da Alemanha. Após deixar os gramados, foi para os Estados Unidos ser treinador de clubes de menor expressão durante os anos 90.
Retornou ao Brasil e mais especificamente à sua Natal nos anos 2000 para treinar o Alecrim, onde permaneceu por poucos meses. Então, resolveu se aventurar como comentarista esportivo. Chegou a ser contratado pela TV Bandeirantes potiguar em 2011 para fazer dois programas: “Palavras da Bruxa” e “Histórias da Bruxa”. Mas também não durou muito tempo por lá.
Mágoa
A única Copa do Mundo da qual participou foi a de 1974, e Marinho nunca escondeu que ficou magoado por não ter sido convocado para os Mundiais de 1978 e 1982, quando ainda estava no auge.
“Modéstia à parte, eu era o melhor lateral do Brasil em 78. Mas o técnico Cláudio Coutinho preferiu levar Edinho e Rodrigues Neto para jogar na esquerda. Também deixou o Falcão e o Paulo Cezar Caju fora. Deu no que deu. Em 82, discordei da decisão do Telê. Júnior estava muito bem, mas a minha fase no São Paulo ainda era melhor – comentou também ao GE em 2012 o ex-jogador, que no Tricolor Paulista ganhou seu único título num grande clube do Sudeste (o já citado Paulista de 1981).
Decadência
Vivendo uma fase ruim e decadente, com problemas financeiros, o ex-craque se divorciou da mulher Lúcia e se afundou ainda mais no alcoolismo. Além disso, sofria de hepatite C, bronquite, ácido úrico alto e hipertensão. Chegou a fazer um transplante de fígado e viveu relativamente bem durante algum tempo.
“Cada pessoa é responsável por escolher o que vai fazer da sua vida. Amigos não obrigam ninguém a fazer nada. Eu, por exemplo, tive problema com o álcool, mas só depois de encerrar a carreira. E foi porque eu quis. Quando eu jogava, me dedicava somente ao trabalho e nunca bebi. O que eu aconselho a garotos e jogadores profissionais é que tenham humildade e pensem nos pais deles, pois o amanhã pode ser muito triste”, declarou ao Globo Esporte.
No entanto, mesmo após o transplante ele continuou bebendo. Marinho passou mal enquanto participava de um evento para colecionadores do álbum de figurinhas da Copa do Mundo em João Pessoa. Após começar a vomitar sangue, foi levado para a Unidade de Pronto-Atendimento Oceania da capital paraibana, onde foi diagnosticado com hemorragia digestiva alta.
Seu quadro clínico se agravou e Marinho Chagas veio a óbito em 1º de junho de 2014, aos 62 anos.