O ex-zagueiro Hércules Brito Ruas nasceu no Rio de Janeiro e começou sua carreira no futebol jogando em seu time do coração, o Vasco da Gama. Este foi também o clube que defendeu por mais tempo: uma década. Foi campeão do Torneio Rio/São Paulo em 1966, na famosa edição em pontos corridos que teve quatro clubes em primeiro lugar (os outros sendo Botafogo, Santos e Corinthians) e que por falta de datas não contou com uma fase final.
Forte como um touro e com cara de poucos amigos, o “Xerifão Brito”, como era chamado, tinha um temperamento explosivo. Em 31 de outubro de 1971, quando defendia o Botafogo em clássico perdido por 1 x 0 para o Vasco, desferiu um soco no árbitro José Aldo Pereira por discordar do pênalti que decidiria a partida e amargaria um ano de suspensão pelo ato impensado.
Amargaria, já que a suspensão durou somente seis meses graças à ação dos advogados botafoguenses com a ajuda da Confederação Brasileira de Desportos (antecessora da CBF). É que a entidade planejava ter o jogador na Seleção Brasileira que disputaria a Mini-Copa de 1972. Coincidência – ou não -, o gancho de Brito acabou exatamente no dia da convocação para o torneio. E ele foi chamado.
“O pênalti foi uma vergonha. Olhei para ele, que me deu uma risada de deboche. Não aguentei e dei um gancho que pegou na barriga dele. Aí, gritei. ‘Isso é para você tomar vergonha na cara’”, relembrou o ex-jogador numa entrevista ao jornal O Dia em 2014.
Mais um episódio muito relatado na época ocorreu quando ele jogava pelo Cruzeiro, em 1970. Brito havia deixado o Flamengo por ter se desentendido com o treinador Yustrich. Na vitória por 3 x 1 sobre os rubro-negros em 8 de novembro de 1970 pelo Roberto Gomes de Pedrosa, ao deixar o gramado do Mineirão, o zagueiro cruzeirense passou pelo túnel do adversário, tirou sua camisa e jogou na cara de seu ex-técnico. Este, por sua vez, tentou sair do túnel em seu encalço, mas foi contido por integrantes da comissão técnica e jogadores reservas.
Auge
Brito jogou em diversos clubes ao longo de seus 20 anos de carreira, como Flamengo, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro e Internacional. Mas seu auge foi a Copa do Mundo de 1970, quando foi considerado o atleta com o melhor preparo físico de todo o campeonato e foi tricampeão ao lado de um time de estrelas.
Vida pacata
Hoje aos 82 anos, Brito continua morando na Ilha do Governador, de onde nunca saiu. Muito mais calmo, leva uma vida pacata ao lado da família. Gosta de pescar na Baía de Guanabara ou na Barra de Maricá e se derrete pelos netos.
“Uma das melhores coisas do mundo é ser avô. É uma alegria. São muito ativos, levados e me adoram”, disse, orgulhoso, a’O Dia.
Terapia
A pesca é sua terapia e foi o que ajudou a acalmar seu temperamento explosivo.
“Acordo às 5 da manhã e vou pescar. Fico o dia inteiro, quando estou em Maricá. Já na Ilha, saio embarcado com meus amigos Demazinho e Lilinho. Antes de chegar em casa, limpo o peixe. Minha mulher é forte na cozinha, mas, no preparo do peixe, é minha aluna”, brincou o ex-zagueiro.
Hoje em dia, é Brito quem tenta abrandar os ânimos dos amigos.
“Quando os caras estão nervosos, lembro o ditado: ‘Tá nervoso, vai pescar’. Eu mesmo quando pesco penso na vida, reflito. Tenho muito medo de morrer. Deus me livre, a vida é muito boa, né!”
