O retorno do autor Walcyr Carrasco ao horário nobre da Globo, desta vez ao lado de Claudia Souto, resgata uma tradição que andava um tanto esquecida nas produções recentes da emissora: o primeiro capítulo catártico. Em Quem Ama Cuida, o público é fisgado de imediato por uma narrativa que não perde tempo com introduções mornas. A trama central se estabelece a partir de um “grande evento” avassalador, o que gerou um alto impacto logo no início da história.

A enchente que devasta a comunidade onde vive a protagonista Adriana (Letícia Colin) serve como uma metáfora visual e narrativa poderosa. De cara, a produção entregou sequências de ação impressionantes, com efeitos visuais e de edição que há muito tempo não se viam na faixa das nove.

A morte trágica de Carlos (Jesuíta Barbosa), marido de Adriana, sela o destino da personagem e estabelece o conflito central com maestria. Havia uma clara saturação na teledramaturgia da emissora, que vinha apostando em estreias conceituais ou excessivamente lentas. Ao apostar no impacto visual e no drama humano logo na estreia, a novela gerou uma comoção imediata e necessária para prender a fidelidade do público.

Letícia Colin brilha

No centro desse turbilhão dramático está Adriana, defendida por uma inspirada Letícia Colin. A personagem, que carrega a complexidade de uma mulher virtuosa, obstinada e por vezes excessivamente moralista, corria o sério risco de cair no estigma da “heroína chata” ou bidimensional. Nas mãos de uma atriz pouco habilidosa, a insistência de Adriana em manter certos princípios poderia soar cansativa para a audiência logo de início.

No entanto, Colin demonstra mais uma vez por que é uma das atrizes mais versáteis de sua geração. Ela confere à protagonista um carisma especial, permitindo que o público se afeiçoe ao seu drama. A atriz consegue imprimir uma doçura e uma verdade que geram empatia imediata, fazendo com que o telespectador torça por ela em vez de se irritar com suas escolhas.

O colapso de Adriana diante da perda do marido e de seus poucos bens materiais foi o ponto alto do capítulo de estreia. Letícia Colin entregou uma atuação visceral, despida de vaidade, que evocou o melhor do sofrimento folhetinesco. Ao humanizar uma figura que poderia ser facilmente pasteurizada, a intérprete garante o coração da novela, transformando a dor da perda em um combustível legítimo para a jornada de superação que está por vir.

Veteranos de volta

Outro grande acerto da estreia de Quem Ama Cuida foi a reverência à história da própria televisão brasileira através de seu elenco. A novela promove uma verdadeira celebração dos veteranos, encabeçada pelo sempre magistral Tony Ramos, que vive Otoniel, avô da mocinha. O ator emocionou na cena em que chora observando a destruição de sua casa.

Além da segurança de Tony Ramos, Quem Ama Cuida tem o trunfo de promover o retorno de astros que andavam afastados dos estúdios da emissora. A presença de Antonio Fagundes como Arthur Brandão, com sua imponência característica e voz inconfundível, traz um peso de prestígio imediato à produção.

O time de veteranos se completa perfeitamente com as voltas de Deborah Evelyn (Carmita) e Isabela Garcia (Elisa), atrizes que possuem uma forte conexão afetiva com o telespectador. Valorizar esses grandes nomes é um sinal claro de que a novela entende a importância da memória afetiva para o sucesso de um folhetim.

Parceria promissora

Após a recepção morna e os problemas estruturais de Terra e Paixão, havia uma natural desconfiança sobre como Walcyr Carrasco retornaria ao horário nobre. O autor, conhecido por seus ganchos infalíveis e apelo popular, precisava demonstrar que suas fórmulas ainda podiam soar frescas. Mas, com Quem Ama Cuida, o veterano mostra que retorna com um melodrama mais afinado.

Grande parte dessa evolução se deve à parceria com Claudia Souto. A coautoria agrega equilíbrio ao texto da novela, injetando uma dose de elegância que muitas vezes fazia falta nos diálogos mais didáticos de Carrasco. A fusão do dinamismo característico de Walcyr com a carpintaria textual de Souto resultou em um roteiro ágil, porém maduro e coerente, ao menos nesse início de novela.

O que se viu no primeiro capítulo foi o início de uma engrenagem que promete funcionar sem os excessos caricatos que por vezes desgastam as tramas das nove. O melodrama está lá, tanto nas tin

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