Pressentimento? Narrador cedeu vaga e escapou do voo da Chapecoense
29/08/2023 às 9h02

Entre todas as histórias da maior tragédia do futebol brasileiro, a do narrador Ivan Carlos Agnoletto beira o sobrenatural e conta com uma dose de sorte. O locutor estava de malas prontas para embarcar no avião que carregava a delação da Chapecoense para a final da Copa Sul-Americana em 2016.
Ivan Agnoletto (Reprodução / Web)Agnoletto também era coordenador da rádio Super Condá e estava escalado para transmitir a final entre Atlético Nacional e Chapecoense, contudo, de última hora, em um ato de solidariedade, o narrador cedeu a vaga para sua colega Gelson Galiotto, que sonhava em cobrir uma final internacional.
A decisão foi tão em cima da hora que não deu tempo de tirar o nome do coordenador da lista de passageiros. Por conta disso, na madrugada do dia 29 de novembro, o celular de Agnoletto não parou de tocar.
Sua mulher atendeu as ligações recebendo os pêsames dos amigos e familiares por perder o marido, quando, na verdade, ele estava dormindo ao seu lado.
Escapou por pouco

Gelson Galiotto (Reprodução / Web)
Em entrevista ao Esporte em Discussão, em dezembro de 2016, o principal narrador da rádio Super Condá relembrou como foi descobrir o acidente.
LEIA TAMBÉM:
● Ídolo do Flamengo tentou de tudo, mas perdeu luta contra câncer terminal
● Pavor: astro tinha que ser dopado para conseguir andar de avião
● Antes do VAR: juiz se deu mal ao expulsar jogador errado do Corinthians
“Eles não tiraram o meu nome da lista. Por isso, eu só fui acordar na madrugada de terça-feira, quando a minha mulher, colada à cama, recebia os pêsames pelo meu passamento. Foi neste momento que eu soube que o avião havia caído”, revelou o locutor.
Além de Gelson Galiotto, outro amigo estava no voo LaMia 2933. Trata-se do repórter e setorista da Chape, Edson Luiz, conhecido como Picolé.
Para o G1, no dia 29 de novembro de 2016, Agnoletto lembrou da empolgação do colega ao saber que poderia realizar seu sonho.
“Eu estava escalado para o jogo, mas meu colega tinha esse desejo de fazer uma final internacional. Quando falei para o Gelson Galiotto que ele ia, nem acreditou: ‘Sério? Eu vou mesmo?’ Era o sonho dele”, recordou Ivan.
Suportou a pressão do filho

Carlos Agnoletto ao lado do filho, Igor (Reprodução / Web)
Chapecó estava em êxtase com a primeira final internacional do clube da cidade. Jogadores, torcedores, cartolas e a imprensa estavam unidos pela Chape.
O filho de Ivan, Igor Agnoletto, dentista, era um dos mais empolgados com o clima e perturbou seu pai para viajar à Colômbia para narrar o primeiro troféu continental da Chapecoense.
Para a BBC Brasil, ele revelou que até grupo no WhatsApp fez para pressionar o pai, que chegou a ser motivo de discussão na família.
“Virou motivo de discussão porque as coisas são muito difíceis para a gente, estávamos felizes com o sucesso da Chapecoense. Hoje, estamos muito tristes, mas aliviados”, contou na época.
“Acho que predominou o alívio de ouvir a voz dele (pai) no rádio fazendo boletim hoje de manhã. Agora, eu fico imaginando o que eu sentiria se ele embarcasse. Eu me arrependeria muito, para sempre”, declarou Igor.
Mais de mil partidas

Carlos Agnoletto (Reprodução / Web)
Atualmente com 63 anos, Ivan Carlos Agnoletto pode celebrar os 50 anos da Chapecoense, clube pelo qual escolheu torcer na infância e acompanha até hoje, como narrador.
De acordo com o locutor, são 1.257 narrações em jogos oficiais nas rádios Chapecó e Condá. Ivan é colunista do Diário de Iguaçu desde a fundação do jornal, em 1977.
Ao site Di Regional dia 10 de maio de 2023, o jornalista falou sobre sua relação com a Chapecoense.
“No final da década de 1960, meu pai me acordava para ouvir os jogos do Inter. Aos poucos, fui me interessando por futebol, graças à empolgação do meu pai com o Colorado (…) A partir daí, por ter (um) futebol amador forte, Chapecó começou a se mobilizar para fundar um time. Veio nossa Associação Chapecoense de Futebol. Jamais esqueço! Meu pai me levou para campo do Colégio São Francisco ver o primeiro amistoso. De lá pra cá, o que brotou no coração só cresceu”, contou Agnoletto.